terça-feira, 11 de setembro de 2007

MÁSCARAS

Uma das coisas mais freqüentes é nos depararmos em determinado momento de nossas vidas com uma descoberta surpreendente e ao mesmo tempo perturbadora: a de que o mundo nos vê diferentemente da forma como imaginamos ser. Isso acontece com quase todo mundo que pare ao mesmo por alguns instantes para pensar a respeito de si próprio. Claro que isso não é nenhuma novidade para os especialistas da área psicológica ou psquiátrica, porém o é para a vasta maioria da população. A razão disto é que nós, seres humanos, somos criaturas sociais, não conseguimos viver sem estarmos inseridos em uma coletividade, mas isso implica em certas regras que devem ser seguidas pelos membros da coletividade a fim de permitir a coesão deste grupo de pessoas de forma mais ou menos organizada. Essas regras (ou normas de conduta) frequentemente não são agradáveis do ponto de vista individual (embora o sejam do ponto de vista coletivo) então, até como estratégia de sobrevivência, buscamos nos adequar a esse conjunto de normas, mesmo que elas não façam muito sentido para nós, ou seja, obedecemos mesmo que a contragosto (pelo menos a vasta maioria das pessoas assim procede). Mas não quer dizer que concordamos com tudo o que nos é imposto. Disso resulta um comportamento de certa forma dialético (ou contraditório, em termos mais gerais), isto é fazemos algo, mesmo que contrário às nossas vontades. Daí resulta que já não somos mais uma única pessoa, somos um ser individual convivendo com um ser coletivo dentro de uma mesma mente. No dia a dia é normal não expressarmos exatamente o que sentimos, afinal assim somos educados desde crianças, para refrear nossos ímpetos e adequar nosso comportamento ao que é socialmente aceitável. Essa é a mensagem que os pais passam (ou ao menos deveriam passar) aos filhos durante o processo de educação. Mas o que ocorre de forma totalmente natural é que desenvolvemos uma personalidade fragmentada, no sentido de que na realidade somos alguém diferente daquele que aparentamos. Não gostamos que os outros (pessoas) entrem em nossa intimidade e descubram nossas fraquezas, receios, aflições, sonhos, esperanças e desilusões. Enterramos nosso eu interior tão bem que quando precisamos acessá-lo de forma consciente ( para resolver algum problema) somos obrigados a fazer uso dos serviços de um especialista no assunto (psicólogo ou psiquiatra normalmente). Essa é a razão da teoria das máscaras, que os especialistas tanto mencionam. Usamos máscaras para proteger nosso interior, nos resguardarmos de críticas dolorosas, opiniões que não queremos ouvir. É um mecanismo de auto-proteção. Só que nesse processo de fechamento sobre sí próprio, acabamos por nos tornarmos estranhos a nós mesmos. Raros de nós conhecem seu próprio interior. E está aí uma das maiores razões de infortúnios do ser humano, desconhecer quem é. Angústias, insatisfações, depressões e outros problemas podem (ressalto, podem) ter aí suas origens. Porisso as doutrinas orientais salientam com tanta veemência a importância da meditação como caminho de resolução de problemas. A meditação é um dos mecanismo através do qual as pessoas podem lentamente se redescobrir, despir-se dos disfarces que usam no quotidiano e muitas vezes encontrar a origem de suas aflições, de seus sentimentos desencontrados. Os grandes mestre orientais sempre pregaram a busca pelo auto-conhecimento como forma evolução espiritual. Mas não apenas eles, também os filósofos já da Grécia antiga afirmavam a máxima "conhece a ti mesmo", e também as religiões ocidentais, ao pregarem o recolhimento e oração como forma de enfrentar os problemas mais aflitivos (neste sentido, a criatura em oração se assemelharia a alguém em meditação e estaria aberto a descobertas de foro íntimo, mas de forma alguma vamos nos imiscuir no âmbito religioso de cada um).
Então, após essas palavras, que a alguns podem parecer muitas, fica evidente que o primeiro passo em busca de uma melhor condição de vida é descobrir quem realmente somos, e não quem aparentamos ser ou que desejamos aparentar à sociedade. A descoberta às vezes pode até mesmo ser dolorosa, se constatarmos que somos muito diferentes daquilo que gostaríamos, porém será muito salutar e importantíssimo nos próximos passos em busca de nosso verdadeiro EU e de uma melhor qualidade de vida.
Obrigado pela atenção.

Um comentário:

Geraldo Benites disse...

É isso aí Adriano,realmente falta é coragem para todos em assumir a sua verdade interna,contudo sempre é bem mais fácil usarmos e abusarmos de nossas diversas mascaras não é mesmo?afinal o SISTEMA abriganos que isso seja feito, se vc cai fora, daí vc. torna-se "diferente", e daí o que acontece? aliena-se o "infeliz"tira o CPF dele?

Abraços

Geraldo